O absurdo do trabalho e a sociedade capitalista
O operário de hoje trabalha todos os dias da sua vida nas mesmas tarefas, e esse destino não é menos absurdo. Só é trágico nos raros momentos em que se torna consciente. -- Albert Camus, O Mito de Sísifo
Absurdo
No Mito de Sísifo, Albert Camus compara o trágico destino do herói grego Sísifo que foi condenado pelos deuses a empurrar uma pedra gigante até o topo da montanha apenas para vê-la cair e ter que recomeçar o seu trabalho. O trabalhador moderno, assim como Sísifo, é obrigado a uma vida de trabalho exaustivo e sem sentido, ao carregar sua pedra por uma semana de trabalho o trabalhador então a deixa cair pela montanha do final de semana apenas para sentir um alívio momentâneo que perdura até que a consciência da próxima jornada de trabalho atinja sua cabeça, tal destino provavelmente se repetirá até que seja incapaz de trabalhar e portanto também sem mais forças para as jovialidades da vida ou até que sua própria vida se esvazie.
Nesse sentido, concordo com Camus: o destino do trabalhador é tão trágico quanto o de Sísifo, o trabalho humano é tão vazio e sem propósito que se perguntar a um trabalhador como foi sua semana ele te dará detalhes sobre seu trabalho, pergunte-o depois de um mês e provavelmente apenas se lembrará dos pequenos eventos que marcarão alguma inconsistência em sua rotina, pergunte a um trabalhador como foi seu ano e a maioria das memórias de trabalho já se esvaíram, o que ficou? lembranças de suas celebrações nos finais de semana e feriados, da sua exaustão crônica, de algumas metas atingidas e das muitas que foram deixadas pelo caminho e já não são mais citadas.
Ao viver desse destino por alguns anos, o trabalhador então percebe que esse será o seu destino por provavelmente os próximos 30 anos, se for sortudo, se não então será pelo resto de sua vida. Graças à natureza, por bem ou por mal, o ser humano só sentirá a tragédia desse fato nos poucos momentos em que sua consciência é cretina o suficiente para lhe lembrar do trágico absurdo que será sua vida, enquanto esse evento não nos ocorrer, podemos momentaneamente sentir paz e felicidade.
Trabalho
Gastar a maior parte da vida ganhando dinheiro para desfrutar de uma liberdade questionável durante a parte menos valiosa dela, me faz lembrar do inglês que foi para a Índia fazer fortuna primeiro, para que pudesse retornar à Inglaterra e viver a vida de um poeta. Ele deveria ter ido morar no sótão imediatamente.'O quê!', exclamam um milhão de irlandeses, levantando-se de todos os barracos do país, 'esta ferrovia que construímos não é uma coisa boa?'Sim, eu respondo, comparativamente boa, ou seja, vocês poderiam ter feito pior; mas eu desejo, já que são meus irmãos, que pudessem ter gastado o tempo de vocês de uma forma melhor do que cavando nesta sujeira -- Henry David Thoreau, Walden
Walden documentou a experiência e ideias de Thoreau ao ir viver por três anos em uma cabana que construiu no terreno de seu amigo Emerson e tentar ao máximo se afastar das construções sociais que julgava desnecessárias. Muito se critica sobre Walden, eu acho um livro lindo, Thoreau não estava tentando viver uma vida de sobrevivência no meio da mata, e deixa muito claro que apesar de sua cabana ser pequena ainda recebia visitas, a terra da qual viveu sua experiência era emprestada de seu amigo Emerson outro grande escritor, e recebia ajudas ocasionalmente. Desta forma Thoreau foi sim privilegiado são poucos que têm a oportunidade de viver uma experiência equivalente e ainda ter algum suporte quando voltar a sua vida na sociedade. Mas não acredito que isso tire o peso de suas críticas ou a beleza de sua prosa.
Não estou tentando convencer ninguém a largar suas vidas e ir viver no meio da mata, mas a frase citada acima foi uma das que falou profundamente comigo, existe uma armadilha no modelo de trabalho moderno, a verdade é que aqueles que trabalham mais duro são os que provavelmente menos terão grandes oportunidades na vida, são os mais exaustos, com menos recursos e mais dificuldades. Meritocracia é uma farsa, aqueles verdadeiramente pobres que alcançam alguma posição de sucesso equivalente aos da elite são minoria e exceção, existe uma espécie de lavagem cerebral feita na classe trabalhadora, tentam nos convencer que de alguma forma essa mecânica é justa, a verdade é que o fator mais importante para determinar o grau de "sucesso" que terá na sociedade é sua família e cep.
A única forma de mudar isso é com conscientização, infelizmente aqueles que mais proclamam as ideias da classe dominante são os nossos companheiros e irmãos, enquanto não estivermos completamente revoltados com a realidade que temos que enfrentar para alcançar o mínimo de dignidade isso dificilmente irá mudar.
A escravidão na sociedade moderna é paradoxal, usando a citação de Thoreau como exemplo, apesar dos trabalhadores irlandeses estarem sendo claramente explorados existe a sensação de autonomia, por escolherem seu próprio veneno têm a ideia de que o fazem porque o querem ou senão porque lhes é a única opção, a escravidão dessa forma se apresenta como autoimposta, na sociedade moderna ela ainda toma a característica da produtividade, como Byung-Chul Han explica muito bem em seu livro sociedade do cansaço, o trabalhador moderno é seduzido pela ideia de que pode ser dono de algo, então o seu chicote se torna a sua própria mente a produtividade se torna a métrica a ser atingida, então em seu emprego o patrão diz que se deve ter mentalidade de dono, caso tenha uma pequena empresa acredita que seu sucesso depende apenas de si mesmo, assim tenta competir como seus colegas e irmãos, se é dono de algo pequeno recebe potencialmente menos que um trabalhador comum ou mesmo um pouco mais, porém trabalha exaustivamente, por acreditar que seu sucesso depende apenas de si mesmo essa dor é ainda pior pois agora carrega o peso de toda a derrota e passa a se ver como um burro, incompetente ou pior preguiçoso, mesmo trabalhando mais que qualquer dono de grande empresa.
Capitalismo
Em uma sociedade que faz do seu objetivo primário o acúmulo indiscriminado de capital mesmo que isso envolva a pobreza do outro não poderia ter uma relação diferente com o trabalho. E a sociedade parece se conformar e mesmo alguns acreditam nisso como ideal. Não deveríamos procurar viver em um ambiente em que todos podem viver boas e confortáveis vidas sem serem explorados até que não possam mais? mesmo que nessa sociedade seja possível atingir uma vida de rei, isso vale a pena se significar abusar de tantos outros?
Basta um pouco de observação para entender que o capitalismo precisa de pobreza ou exploração para funcionar, apenas alguém em extrema necessidade aceitaria trabalhar em posições tão absurdas quanto as que são oferecidas, estes mais pobres necessitam de trabalho e se faz obrigatório para sua sobrevivência trabalhar em tais posições. Os trabalhos ditos mais visados se tornam então ou extremamente competitivos, possuem uma barreira de entrada quase inalcançável para o cidadão médio.